terça-feira, 8 de março de 2011

ENTREVISTA COM DOM JOSÉ MAURO RAMALHO DE ALARCON E SANTIAGO - 1º BISPO DA DIOCESE DE IGUATU, DE 1962 ATÉ 2000.

1ª PARTE

Obs.: Transcrita a partir da gravação feita no dia 5 de julho de 2010.

OSMAR FILHO - É com muita alegria que nós nos encontramos aqui, na residência episcopal de Dom José Mauro.

Dom Mauro, que esteve por longos anos, mais precisamente, de 1962 a 2000, à frente do governo pastoral da Diocese de Iguatu.

Nossa Diocese, enquanto família, vai-se encaminhando para celebrar o seu Jubileu de Ouro de ereção canônica.

E é evidente que Dom Mauro, tendo sido o primeiro pastor - o primeiro Bispo! -, foi quem lançou a semente; quem arquitetou - podemos dizer - o arcabouço administrativo da Diocese... tem muito a nos falar , aqui numa meia hora de diálogo. E a gente vai registrar esta conversa, e vamos postá-la na internet, e, assim , disponibilizar este documentário ao alcance dos nossos internautas.

Então, Dom Mauro, boa tarde!

Nós gostaríamos que o senhor nos desse umas primeiras informações neste sentido: O SENHOR FOI NOMEADO BISPO PELO PAPA JOÃO XXIII...

DOM MAURO - (confirmando) ... João XXIII. Eu estava em Aracati. Eu era vigário em Aracati. Eu tinha uma média de 13 anos de sacerdócio: exercidos 5, em Limoeiro; 2, em Aracati, como Capelão do Seminário Menorista, e estava findando o quinto ano de meu pastoreio como vigário de Aracati. E fui surpreendido, lá pelo mês de agosto, ou setembro, por uma Carta da Nunciatura Apostólica no Brasil, avisando-me que o Papa João XXIII me tinha escolhido para ser o 1º bispo da Diocese de Iguatu. Esta notícia tinha sido precedida por alguns sinais que me deixaram, assim, atento, à possibilidade de chegar essa notícia: os boatos! Toda notícia é precedida de boato! E boatos de quem não sabia guardar o segredo.

OSMAR FILHO

(interferindo, complementando) - Segredo pontifício, nesse caso.

DOM MAURO - É... que insinuava: isso ou aquilo. Boato até para as pessoas da minha casa: a minha mãe, minhas irmãs.

Um belo dia, eu recebi uma visita de um padre - que já é defunto - e ele foi entrando de casa adentro, lá na Casa Paroquial de Aracati, me falando, saudando-me como o Bispo de Mossoró... (risos gerais). Certamente ele tinha qualquer notícia para fazer essa saudação. Cheguei aqui em 1962, aqui em Iguatu, no dia 3 de fevereiro.

OSMAR FILHO - Naturalmente, antes, houve a Sagração, que foi em Aracati.

DOM MAURO - Fui sagrado em Aracati no dia 6 de janeiro de 1962. E tomei posse na Diocese no dia 4 de fevereiro de 1962. É claro que iniciar a atividade numa Diocese significa cuidar de tudo. O povo de Iguatu me recebeu com muita alegria, e preparou a minha chegada aqui, como era possível ao povo surpreender-se com a presença de um bispo. Mas as estruturas estavam todas por serem lançadas. Eu fui para a casa do padre. O padre renunciou à casa dele. Eu me lembro que um dos primeiros vigários da Paróquia foi o padre Antônio Vieira, que veio lá de Icó. E ele precisou alugar uma casa, porque eu estava na casa que era dele. Eu recebi visita do Deputado Federal iguatuense, Adahil Barreto Cavalcante, que foi me aguardar, enquanto eu saia do banheiro da casa onde eu estava. Ele me viu de toalha no ombro e saboneteira na mão. Eu nem pude preparar o contato; eu sai do banheiro. E ele foi me saudando, na saída do banheiro, com esta palavra interessante: característica dum Dom Mauro Ramalho no seu palácio plebeu. (Risos gerais). E comecei a atividade, com muita alegria, com muita determinação, como Deus me permitia. E tudo foi chegando... tão bonito. Como Deus cuida das coisas dele! Tudo foi chegando! A começar da generosidade dos deputados, representativos aqui da Região: Figueiredo Corrêa, de Várzea Alegre, que nem é da Diocese de Iguatu; Wilson Roriz, primo de Mons. Couto, que era o Vigário Geral, lá do Cariri. Hugo de Gouvêa Soares, sobrinho do ex-prefeito de Iguatu, Dr. Manoel Carlos de Gouvêa. E eles se associaram para procurar uma resposta financeira às necessidades iniciais da Diocese. Eu não tinha casa, eu não tinha um veículo para me movimentar. E eles foram pensando em tudo isso. Tive a chance... a boa chance, de possuir governadores muito aconchegados a mim. O primeiro era Parsifal Barroso, homem decididamente... manifestamente católico. O outro, era filho de Mombaça...

OSMAR FILHO (complementando) ... Dr. Plácido Aderaldo Castelo.

DOM MAURO: ... Dr. Plácido Castelo, que eu fui visitar, e ele me acolheu com estas palavras: "Dom Mauro, eu sou seu diocesano! O senhor, até agora, não me pediu nada." Àquela hora, eu disse: mas eu vou lhe pedir agora! Então pedi a ele que comprasse um prédio à venda, para a Escola de Comércio, que tinha me sido entregue por uma comissão de iguatuenses, tempo antes. E ele adquiriu o prédio, e o reformou, adequando-o para uma escola. É o atual prédio da Escola Técnica de Comércio, que, por falta de sintonia, de ajustamento das coisas, terminou ficando do próprio estado, porque não houve a prontidão do Governador Plácido Castelo de passar documentos doando, por escritura...

OSMAR FILHO (complementando) ... faltou a parte legal...

DOM MAURO - É... faltou a parte legal. E, até agora, eu não consegui sensibilizar alguns dos governadores que lhes sucederam, para fazer esta passagem, do edifício, da posse do edifício: que, de Direito, é da Diocese; e, de fato, é do governo do Estado. Isso... são detalhes que talvez não merecessem ser considerados agora. Mas eu estou conversando espontaneamente...

OSMAR FILHO : De fato, esta nossa conversa deve ir fluindo, assim, bem ao natural, sem nada programado.. (...) Dom Mauro, permita-me fazer agora, aqui, uma referência à Irmã Teresa. Ela que também faz parte da família Diocesana; ela, que conheceu as nascentes da Diocese; e que foi uma grande colaboradora de Vossa Excelência nas visitas pastorais. Ela vai já fazer uma pergunta relacionada às visitas pastorais. Mas, antes, gostaria que o senhor nos desse uma notícia do Concílio Vaticano II. O Senhor, feito bispo em 62, chegou, portanto, a fazer parte do episcopado brasileiro, da CNBB, num ano altamente significativo para a Igreja. O senhor participou do Concílio. Nos dê uma notícia de como foi esta experiência.

DOM MAURO - (Voz emocionada) - Naqueles primeiros dias, em que eu começava a sentir as responsabilidades de Bispo de Iguatu, chegou-me uma Carta do Papa , através dos setores competentes, convidando-me para participar do Concílio Ecumênico Vaticano II. O Concilio Ecumênico Vaticano II foi um acontecimento singular, definido pela própria Providência Divina. Ele se realizou no tempo oportuno. Já devia ter sido convocado pelo Papa Pio XII, que não o convocou por conta das tarefas e dos problemas que o cercavam no seu pontificado. A gente deve se lembrar que o mundo se conturbou com a 2ª Guerra Mundial. Não estava satisfeito de guerra - que tinha acontecido de 1914 a 1918. (...) Pio XII estava assoberbado de problemas, com a luta dos poderes absolutistas , de hitlerismo, de comunismo, que ameaçavam até o próprio Papa Pio XII. Se Hitler não invadiu Roma, é porque era uma ousadia fenomenal. Na cabeça dele - pelo que se sabe - o projeto dele era tomar Roma, talvez até prender o Papa. Mas a Providência é quem governa o mundo... então, ele não conseguiu isso. O Papa estava noutra tarefa, de que ele sofreu muito as conseqüências: a luta contra os Judeus, naquela Guerra. E alguém achou de acusar o Papa, de não ter cuidado daquela injustiça de Hitler, perpetrada contra os judeus. Mas o Papa, silenciosamente, estava procurando oferecer guarida para os judeus, que estavam ao alcance dele defender. Houve até um livro, que foi muito divulgado naquele tempo , chamado "O Vigário", em que esta acusação foi feita frontalmente por escrito.

Mas o Papa estava impossibilitado de celebrar o Concílio, porque ele precisaria, primeiro, de um ambiente de paz; e não havia esse ambiente. Coube ao Papa João XXIII convocar o Concílio, e havia gente que nem esperava que o Papa convocasse o Concílio, porque, na visão de muita gente, o Papa estava muito velho. Dizia-se que ele era um Papa "de passagem"; e a primeira coisa que ele fez, para a surpresa de todo mundo, foi convocar o Concílio. Aos jornalistas que vieram ao Vaticano, ele concedeu aquela entrevista coletiva, dizendo para eles que que significava o Concílio para a Igreja. Ele se levantou do lugar onde se encontrava, na sala em que ele recebeu os visitantes, e abriu a janela da sala, para dizer que o Concílio Vaticano II... ele ia oferecer nova luz para a Igreja. E expressou o pensamento dele dizendo " aggiornamento " , que é uma palavra italiana, para significar: à luz do dia, à luz dos fatos, à luz do momento. Porque... de fato, o mundo passou por uma transição muito forte. A gente vivia num mundo que aceitava a Igreja, embora com todas as lutas que a Igreja enfrenta, e agora a gente entrava para o tempo da Idade Moderna, que tem outros ases, outros pensamentos, outras idéias. E... o tempo vai passando, e a gente vai sentindo como o pensamento humano está sintetizado na força do dinheiro e da modernidade, com palavras até escolhidas para expressar esta visão moderna de mundo: um mundo sem Deus, um mundo materialista, um mundo que procura descartar os valores tradicionais.

Foi nesse clima, que eu passei os meus 38 anos de bispo diocesano de Iguatu, à luz do Vaticano II, com uma visão renovada, e transmitindo essa visão renovada para a comunidade da Diocese iguatuense. Com valores que se desenvolveram naquele primeiro tempo; valores que foram deixados de lado, por uma multidão de razões; mas que foram a força da minha atividade pastoral de início.

(...) As Comunidades... eu fui um bispo das Comunidades (Comunidades Eclesiais de Base). Teresa Bandeira ( nesta hora, Dom Mauro se volta para Ir. Teresa) bem que sabe disso. Eu visitava as Comunidades. Eu reunia as lideranças das Comunidades, que estavam no auge naquele tempo. E, assim, iam se renovando, iam circundando, iam se fortalecendo, iam... se renovando as lideranças nas Comunidades Eclesiais de Base. A novidade da Comunidade Eclesial de Base é exatamente a consciência de Igreja naqueles núcleos que conviviam com as mesmas dificuldades, com as mesmas interrogações, com os mesmos anseios, com a mesma luta, com a mesma vontade de crescer.

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